quinta-feira, 22 de dezembro de 2005

Relatório de Estágio 2005/2

Estes escritos que seguem compõem meu relatório do estágio realizado no sétimo semestre do curso de Pedagogia da UFRGS.

Os mosaicos que compus...

Quando escrevo, a caneta transforma-se,
vira quase um pincel e eu começo a pintar...
E pinto palavras ao som de uma música ? que eu nem sei cantar
que move a minha mão...
Ao som desta música, dou forma aos meus textos,
crio estes mosaicos, estas composições...
Imagino as palavras dançando num baile,
inspirando desenhos que tocam emoções...
Eu, assim, ganho asas, e com elas viajo
por lugares não pensados criados pela imaginação...
Cátia Zílio
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Se procurar bem você acaba encontrando.
Não a explicação (duvidosa) da vida,
Mas a poesia (inexplicável) da vida.
Carlos Drummond de Andrade


Se cada dia cai - Pablo Neruda (Últimos Poemas)
Os poemas - Mario Quintana - Esconderijos do Tempo
Outro poema de Pablo Neruda
Mãos Dadas - Carlos Drummond de Andrade
fragmento de ?Água viva? - Clarice Lispector
Reinvenção - Cecília Meireles
Parte I
Parte II
Parte III
Ausência - Carlos Drummond de Andrade

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Se cada dia cai
Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.
Pablo Neruda (Últimos Poemas)


Começar a escrita! Relato de uma prática educativa em séries iniciais; colocar no papel o caminho que percorri, paisagens que avistei, pessoas que encontrei, sonhos que sonhei...
Deixar emergir as emoções que as lembranças suscitam e escolher algumas para deitá-las no papel...
Obstáculos, medos, tristezas, angústias, alegrias, decepções, motivações, descobertas e conquistas; tantos outros sentires não traduzidos em palavras... Pescar com paciência cada uma destas lembranças presas no poço.Mesclar arte e educação através dos conceitos utilizados. Fazer as palavras dançarem ao som da poesia. E assim, pouco a pouco, contar este dia-a-dia que cai, enquanto vou me compondo - mosaico de professora.
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Os poemas

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...
Mario Quintana - Esconderijos do Tempo


Com estas palavras que vou escrevendo, coloco no papel um pouco de mim, dos dias que vivi, dos mosaicos que compus ao longo dos dias deste segundo semestre de 2005, momento que realizo meu primeiro estágio obrigatório para conclusão do curso de Pedagogia com ênfase em Séries Iniciais do Ensino Fundamental, na Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Ao mesmo tempo, em que procuro palavras emergem lembranças, então percebo que aquela obrigação que, em 2003, fez com que eu me tornasse professora de uma turma de quarta série da Educação de Jovens e Adultos (EJA), transformou-se, nestes dois anos de vivências, na opção por realizar este estágio com meus alunos jovens e adultos. Assim, neste momento de escrita não há como não contar e recordar como vou me compondo, como esta transformação de obrigação em opção foi possível, ou melhor: é possível...
Cheguei à Escola Estadual de Ensino Médio Professor Oscar Pereira em 20 de agosto de 2003, para trabalhar no turno da noite; empurrada para a EJA, sem escolha devido a dificuldade de horários. Naquele semestre a modalidade de ensino EJA estava sendo implantada na escola, isto é, novas turmas, novos alunos e alunas, novas professoras e professores chegavam à escola. Entre os professores pairava a dúvida, o desconhecimento sobre a Educação de Jovens e Adultos, sinal de que era preciso desbravar caminhos novos, ou talvez reorganizar os trajetos já conhecidos, adaptá-los as novas circunstâncias. Lembro-me que a maior preocupação era com o tempo ? como ensinar tudo em metade do tempo? O que trabalhar? Quais conteúdos deixar de lado?
Ainda ecoam em mim as palavras de uma aluna que inicialmente achava que eu não ficaria na escola, na turma. É, percebo que não era possível esconder o medo diante do desconhecido, afinal minha formação era para trabalhar com crianças.
Foram estes, dois anos, de grandes aprendizagens, medos e incertezas sobre o trabalho que desenvolvia, que desenvolvo. Lutas contra o ensino bancário, mecânico e repetitivo, baseado na cópia e na memorização. Força, para mostrar aos alunos que só a cópia não basta, que é preciso interagir e dialogar com os outros e com os conhecimentos para compreendê-los. Romper com o que está pronto, com o medo de pensar diferente, de ter idéias, opiniões e expor para o mundo.
Os jovens e adultos, quando voltam ou chegam à escola, trazem consigo uma gama de impressões sobre a escola, sobre como devem ser as aulas. Para muitos, aula é sinônimo de caderno cheio, de muitos textos copiados, de uma centena de cálculos para fazer a cada dia. Aprende quem escreve na prova a resposta igual a do livro, após ter passado horas relendo o mesmo texto e, portanto, memorizado cada palavra.
Não acredito que copiar seja sinônimo de aprender e ensinar seja apenas transferir conhecimentos, ou melhor, transferir uma gama de informações armazenadas na memória. Se assim fosse os computadores seriam os melhores professores, visto que suas memórias ? sempre em expansão ? armazenam mais informações do que qualquer ser humano.
Contudo, este dia a dia que cai, ensina-me que é preciso ir com calma, com paciência e persistência para alcançar os objetivos, para transformar a escola, a educação e os significados que são atribuídos a elas. Não dá para jogar tudo para o alto, assim como não posso, enquanto professora e também com pessoa que sou, ignorar os saberes de meus alunos, silenciá-los para lhes impor minhas verdades. Não posso agir desta forma, pois se fizer estou agindo contra mim mesma, contra minhas próprias crenças e minhas palavras perdem o sentido, viram blablablá. Freire ressalta como é importante a reflexão crítica sobre a relação entre teoria e prática. As palavras morrem quando separadas das ações. As palavras são vivas e recriadas a cada instante pelas e nas ações vivenciadas. Alimentam-se dos falantes e dos ouvintes que lhes atribuem significados novos, diversos. São sempre recriadas!
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Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
Pablo Neruda


Um mosaico! Trabalho sempre incompleto; nunca pronto como o desenho do quebra-cabeça, mas aberto à colocação de diferentes peças, de novas, de outras peças...
Novos desenhos constituem-se nas diversas relações estabelecidas.
Conhecer é compor mosaicos, é compor-se com as peças que são oferecidas, buscadas, encontradas, criadas. Juntar uma a uma sem sobreposição, numa composição harmoniosa: esta é a tarefa, o ato de conhecer.
Não sabia que o mosaico era vida, pensava que eram pedras colocadas lado a lado, que formavam desenhos que existiam a priori na cabeça do artista...
Pedras que ficavam paradas, presas, imóveis...
pedras que não eram mexidas.
Não captava a diferença entre mosaico e quebra-cabeça;
quebra-cabeça e mosaico pareciam o mesmo...
Pouco a pouco percebo o movimento do mosaico.
As pedras ganham vida! Nas mãos de artista, nos olhos e olhares das pessoas, nos sentimentos, desejos, emoções e pensamentos que afloram; que o mosaico desperta.
Vida e conhecimento...
Mosaico e composição...
Ah! Paulo Freire! Certa feita dissera que ensinar não é transferir conhecimentos...
Ensinar é compor, é compor-se, é aprender enquanto se ensina e se aprende;
se aprende e se ensina...
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Mãos Dadas
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos,
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.
Carlos Drummond de Andrade

O ser humano é um ser de comunicação. Um ser de diálogo que se compõe e recompõe a partir dos diálogos que estabelece com os outros, com as coisas, com o mundo que o cerca. Não há como pensar em aprendizagem sem diálogo; toda aprendizagem só acontece no diálogo, com o mundo e consigo mesmo.
Dar aula não é falar para, mas falar com. E ao falar e ouvir; ouvir e falar, nos compomos professoras, alunas, aprendentes e ensinantes. Estas composições não podem ser dicotomizadas e muito menos polarizadas, visto que uma não exclui a outra, mas estão entrelaçadas uma na outra. A comunicação, que se estabelece na sala de aula, só existe à medida que todos ? professora, alunos e alunas ? são participantes ativos, integrados neste diálogo, que deve ser mais do que uma troca de informações, mas uma conexão viva de saberes e sentimentos.
Assim, eu, professora da turma da quarta série da Educação de Jovens e Adultos da Escola Estadual de Ensino Médio Professor Oscar Pereira, estou presa à vida, minha e daqueles que me cercam, com que dialogo, a quem provoco que participe do diálogo.
Cada questionamento da Ana Paula frente aos preconceitos da nossa sociedade, as reflexões do Elias a respeito da história e atualidade do Rio Grande do Sul e a diversidade de assuntos levantados pelo Jorge. Cada poesia escrita pelo André e os ?não sei? do Marcelo diante das propostas de escrita, quando muitas vezes era o primeiro a terminar os exercícios de matemática. Cada uma das ausências da Danielle e dos silenciamentos do João Felipe. As angústias do Adilson frente seus problemas familiares. Não posso fugir da vida presente em cada um, mas é preciso convidá-los a buscar outros lugares, outros saberes...
Estou presa a eles, a todos e a cada um; cada uma.
Imagem 1: Foto da turma no dia 1º/12.

Ousando, apesar do medo que muitas vezes chega. Lutando contra as dificuldades que surgem, a fim de superá-las, de transformá-las. Buscando constituir uma turma, um grupo, pessoas que aprendam juntas, umas com as outras, solidariamente. Superando as ausências, as aulas com apenas dois alunos. Conquistando cada um, cada uma, através da conexão que vai se compondo, das ligações, trocas e dos laços de amizades que vão se constituindo, que vamos estabelecendo nas nossas relações.
Para promover estas relações entre a turma, passei a realizar, em cada aula, um momento de descontração, um momento de bate-papo, de lanche coletivo. Recreio! Onde cada um re-cria sua relação com a sala de aula, seu papel de aluno. Estes dez ou quinze minutos da aula tornam-se um momento em que cada um afasta-se um pouco da posição de aluno que a sala de aula exige(?). Através destes momentos fomos rompendo com a superioridade que existe nas relações escolares, reforçamos nossos laços de amizade, conquistamo-nos.
Ao mesmo tempo, os alunos e alunas, começam a perceber sua importância no ato de conhecer, a falta que fica em cada uma de suas ausências. As aulas quase vazias tornaram-se as aulas com nove pessoas envolvidas na busca pelos conhecimentos, que descobrem paulatinamente que aprender é compreender e recriar os conhecimentos. Mais que memorizar, é criar e criar-se mosaico vivo.
Afinal, os conhecimentos estão presos à vida, ao presente. A aprendizagem não pode estar fundada no passado, da mesma forma que não deve ser uma preparação para o futuro. Sendo assim, a cópia e a repetição das descobertas do passado não podem ser a parte principal do aprender. Aprende-se agora, vive-se agora, criam-se conhecimentos agora! Por isso vamos de mãos dadas, vivendo, aprendendo, ensinando, criando, nos compondo a cada dia que cai, pois nossos conhecimentos, nossos saberes, tal como os poemas, não tem pouso e alimentam-se a cada instante dos gestos, sons, olhos, olhares, toques, sabores e trocas que vivemos.
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Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada.
O que te direi? Te direi os instantes.
Clarice Lispector (fragmento de "Água viva")

Ao escrever o planejamento pedagógico para o semestre revelo minha maneira de ser, pensar e agir, gravando-as no papel. Ao mesmo tempo reflito sobre meus fazeres e objetivos.
Planejar é traçar o mapa do caminho pelo qual anseio percorrer, apontando os lugares que pretendo descobrir, com a esperada companhia das alunas e alunos da quarta série da Educação de Jovens e Adultos do segundo semestre de 2005. Nele junto passado, presente e futuro, a medida que sua construção desperta lembranças do que já vivi e mescla com o que sou e com os objetivos que proponho para alcançarmos. Assim foi surgindo o projeto:

Pesquisadores a solta: em busca de conhecimento

Conhecimento: O que, Por que e Para que aprendemos?
O que é o conhecimento? De onde ele vem? Que importância ele tem para minha, ou melhor, para nossas vidas?
Começo estes escritos com uma série de questionamentos. Não busco, com eles, encontrar uma resposta fixa, pronta, final como uma definição de dicionário: "Conhecimento - s. m. ato ou efeito de conhecer;" (Priberam, dicionário on-line). Desejo pensar, refletir, propor, discutir, problematizar, tais questões em conjunto com a turma e com quem desejar pensar junto. Quais os motivos que trazem pessoas, jovens e adultas, de volta para a escola; seus anseios em conseguir um emprego melhor, uma vida melhor. Que sentidos são atribuídos à escola, aos conhecimentos, às professoras e professores, nas relações que se estabelecem? Como aprendemos e para quê?
Mexer com estes sentidos parece-me fundamental. Provocar, motivar, despertar interesses, questionamentos, a fim de levar a turma a perceber que aprender não é copiar; não é repetir o que já foi dito; não é transferência de conhecimentos e por este motivo, na sala de aula, não há o professor que sabe tudo e o aluno que nada sabe.
Compreender que ninguém ignora ou sabe tudo , afinal os conhecimentos são construções sociais coletivas (sem esquecer que o coletivo pressupõe o individual). São mosaicos ! Estão sempre em transformação e, por isso, não podemos pensá-los acabados, totais, completos. Cabe destacar que os conhecimentos acontecem ?apesar? da escola, para além dos muros escolares. Assim, a escola talvez possa ser vista como um lugar onde estes conhecimentos são agrupados e partilhados; um lugar de trocas, de solidariedade, de amizades e conflitos, em suma, um lugar de histórias que contam trajetórias sociais individuais e coletivas.


A Turma

Esta turma da quarta série da Educação de Jovens e Adultos não é igual a nenhuma das que a antecederam, visto que cada pessoa modifica-se a partir das suas vivências, dos mosaicos que compõe com elas. Entretanto esta turma possui duas características importantes: a primeira diz respeito a quantidade de alunos. É uma turma pequena, na lista de chamada há somente onze alunos, considerando que nos semestres anteriores as listas tinham em média 25 alunos. A segunda caracteristica é a predominância de alunos mais jovens, com idades que variam entre 14 e 35 anos.
São seis homens: Jorge com 35 anos, Elias com 27, André com 21, Marcelo com 17, João Felipe com 15, Adilson com 14 e Dion com 21, sendo que este último não freqüentou nenhuma aula. Já as mulheres são duas que ainda participam das aulas: Ana Paula com 25 anos e Daniele com 15. No início do semestre haviam mais duas: Ana Maria, com 32 anos, que não conseguiu mais conciliar os horários de trabalho com as aulas, e Deise, com 17 anos, que provavelmente teve que desistir das aulas para cuidar do filho.
Os alunos
Como o mosaico é composto por diferentes pedras, a turma também é formada por pessoas diferentes. Formar uma turma é estabelecer relações harmoniosas entre os diferentes, e sem excluir ou sem sobrepor estabelecer diálogos.
Inicialmente realizei uma breve conversa com cada um, com o intuito de conhecê-los melhor nas suas individualidades. Assim, este planejamento está ligado aos diálogos que estabeleço com a turma e com cada um.

A escola

Nos altos do Morro da Embratel em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na rua Francisco Martins sem número, está localizada a Escola Estadual de Ensino Médio Professor Oscar Pereira.
Funcionando nos três turnos (manhã, tarde e noite), a Escola conta com XX professores, XX funcionários para atender 1680 alunos, predominantemente da classe popular, distribuídos nas turmas da Pré-escola ao 2° ano do Ensino Médio durante o dia e a noite três turmas de Ensino Médio regular e a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) nos níveis Fundamental e Médio.
Todavia a Escola não é privilegiada com uma área ampla e nivelada. Possui 34 salas de aula, secretaria, sala da direção, sala de recreação, laboratório, biblioteca, cozinha e refeitório, 8 banheiros, sendo 3 femininos, 3 masculinos, 1 para os professores e 1 para os funcionários.
A área da Escola é pequena, possuindo um pátio pequeno e não coberto e uma quadra de esportes, também ao ar livre, sendo que em dias de chuva o único abrigo para os alunos são os corredores e as salas. Atualmente, devido o aparecimento de rachadura no muro que contorna a lateral da quadra esportiva, a mesma encontra-se interditada. Por este motivo, durante o dia o recreio é feito em horários específicos para cada turma.
O prédio é muito mal conservado. Em diversas salas faltam muitos vidros, que segundo informações foram quebrados a pedradas, e deixam as salas muito frias e em dias chuvosos não impede a entrada de chuva.
Os banheiros, muitas vezes, não recebem o cuidado necessário, e exalam odor quase insuportável pela Escola. Da mesma forma, a limpeza das salas de aula não é uma constante. Segundo a direção, as salas são varridas diariamente, no intervalo entre os turnos, e a limpeza das classes é quinzenal, considerando a existência de apenas dois funcionários e o pouco tempo entre o término de uma aula até o início de outra.
A escola possui Televisão, Vídeo-cassete, DVD, três rádios com CD, Retroprogetor (fora de funcionamento, por estar com a lâmpada queimada) e um episcópio.


Traçando planos

Utilizando alegoria trazida por Simone em sua tese (2003), pretendo ao longo deste semestre iniciar a composição de um mosaico considerando que o trabalho a ser realizado ultrapassa o observável, os registros e as interpretações que podem ser feitos a partir dele, pois sendo um planejamento pedagógico para a turma da 4ª série da Educação de Jovens e Adultos da Escola Estadual de Ensino Médio Professor Oscar Pereira, acredito que o mesmo irá além da sala de aula.
Desta forma, juntamente com as alunas e alunos iremos compor um mosaico que compreenda as relações entre os conhecimentos sociais de cada um e os conhecimentos escolares, buscando a percepção e a problematização sobre a superioridade muitas vezes atribuída aos conhecimentos escolarizados. As aprendizagens dar-se-ão através das peças que cada um de nós coloca. Diferente de um quebra-cabeça, onde ao iniciar a montagem já temos nas mãos bem definido o modelo daquilo que iremos montar. Segundo Simone (2003), no mosaico o desenho será conhecido somente a posteriori, quando todas as peças forem colocadas, estando sempre aberto para a colocação de novas peças que não sobrepõem as demais, mas estabelecem relações harmoniosas entre si.
Ao mesmo tempo, que discutiremos as origens de alguns conhecimentos escolares, os alunos serão levados a escolher um tema de seu interesse para desenvolver um pequeno exercício de pesquisa, isto é, uma busca por mais informações sobre o assunto escolhido, na tentativa de conhecê-lo mais. Para tanto, serão explorados livros, jornais, revistas, enciclopédias e outros materiais que tivermos acesso, objetivando a produção material de registro das descobertas feitas por cada aluno. Tal registro será feito através da construção coletiva de jornal-fanzine , e este será distribuído na escola. Assim, as pesquisas realizadas pelos alunos será individual, na medida que cada aluno escolherá seu próprio tema; e coletiva, visto que os assuntos e descobertas serão partilhados na turma.
Considerando que os fanzines são ótimos veículos de divulgação de opinião, por sua facilidade de criação, visto que não possuem um formato pré-definido, estando abertos a criatividade de seus editores.


Planos metodológicos para execução do projeto

· Dinâmicas que propiciem o preparo da escuta, desenvolvendo a capacidade de prestar atenção na fala do outro;
· Discutir os desejos de cada integrante da turma, encontrando interesses comuns;
· Elaboração de Diário de Bordo individual e coletivo onde serão registrados fatos importantes do semestre ? cada um terá seu Diário individual e também será feito um diário comum à turma onde serão relatadas as aulas. O diário individual será composto por registros dirigidos e espontâneos. O diário coletivo, inicialmente será redigido pela professora, que fará a leitura dos registros para a turma, pouco a pouco o registro será delego aos alunos;
· Construção de projeto de pesquisa, onde cada aluno irá apontar o tema que pretende conhecer mais e os meios que utilizará para isto;
· Análise de livros didáticos: pesquisa sobre os conteúdos presentes nos livros, especialmente os de Estudos Sociais, Português, Ciências e Matemática;
· Construção de acervo (utilizando livros, jornais, arquivos e outros formas de registro) a partir dos conhecimentos construídos ao longo do semestre sobre a Escola, o bairro, a cidade;
· Elaboração de mini-hemerotecas, sobre os temas das pesquisas;
· Composições com recorte e colagem;
· Debates e produções a partir de filmes;
· Apresentações para a turma;
· Realização de entrevistas com pessoas da comunidade e meio social de cada um;
· Visita a espaços educativos da cidade:
· Produção de relatórios das atividades realizadas;
· Confecção de jornais-fanzine, cartazes e folders;

Objetivos, ou quem sabe desejos para o crescimento da turma:
· Perceber a importância do registro e suas relações com a sociedade da qual fazemos parte;
· Compreender o conhecimento como construção social em constante transformação;
· Reconhecer o outro como personagem indispensável na aprendizagem;
· Desenvolver a habilidade da escuta do outro, considerando a fala do outro como possibilidade de aprendizagem, integração, troca e solidariedade;

Avaliação:
Ao longo do semestre serão realizados debates para discussão sobre o andamento das aulas.
No final do semestre os alunos farão uma auto-avaliação escrita, a partir de tópicos apresentados, considerando a participação nas aulas e a realização das atividades sobre os diversos conteúdos discutidos ao longo do semestre.

Recursos:
Cartolina, folhas A4 e papéis coloridos diversos;
Livros, jornais, revistas e outros informativos;
Filmes em DVD;
Máquina fotográfica;
Textos xerocados;
Lápis de cor, canetinhas e materiais de pintura;
Tesoura e cola;
Cadernos ¼ sem espiral;
mapas

Listagem básica de conteúdos a serem desenvolvidos ao longo do semestre:

Linguagem
compreensão e produção textual;
leitura oral;
ortografia;
pontuação;
classes gramaticais (algumas noções);
formação das palavras: línguas-origem;

Matemática
quatro operações;
medidas
gráficos;
probabilidades;
frações;

História
história, fato histórico e pré-história;
noções de temporalidade: passado, presente e futuro;
origens: etnias, cidades;
surgimento e transformações do bairro, da escola;
memória: evocadores de memória, oralidade;

Geografia
Localização espacial;
cartografia: mapa, legenda, escala;
paisagem, relevo;
expressões culturais, artefatos;

Artes
o belo;
criatividade;
trabalhos manuais: pintura, recorte, desenho, origami;

Ciências
Corpo Humano;
Meio Ambiente: preservação e poluição, o lixo;

Cronograma:

Setembro:
Apresentação do planejamento ? discussão com a turma;
Definição dos temas de pesquisa: considerando que cada aluno escolherá um assunto de seu interesse, que deseja saber mais;
Organização e criação dos projetos de pesquisa:
O que? ? qual assunto me interessa?
Como? ? onde e o que farei para conhecer e descobrir mais coisas sobre este assunto?
Criação de um Diário de Bordo e Portfólio individual;

Outubro:
De 3/10 à 8/10 (1ª semana) ? Mostra Literária da Escola:
Tentar agendar a visita do autor Luis Antônio de Assis Brasil
Apresentar uma criação da turma na atividade que ocorrerá no sábado: Construção de um jornal sobre a EJA, em parceria com as demais séries da EJA ? Alfabetização (1ª, 2ª e 3ª séries)
Visita a espaços educativos na cidade: Museu da Eletricidade, Memorial do RS, Biblioteca Pública, CCMQ, MARGS, Bienal... (à definir)

Novembro:
Organização dos materiais coletados, sistematização e registro das descobertas;

Dezembro:
Elaboração das apresentações;
Apresentação para a turma das descobertas;
Conclusão dos registros e organização e arquivamentos das construções do semestre, que ficarão disponíveis na biblioteca;
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Reinvenção
A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... ? mais nada.
(...)

Diário de bordo: o relato de cada aula feito pela turma ao longo do semestre.

Uma das atividades que propus para a turma foi a construção de um diário de bordo, ou seja, um caderno onde seriam feitos registros importantes do semestre. Diário de Bordo, termo usado em navegações, é o local onde são registrados os fatos mais relevantes da viagem. É um documento importante, que pode servir para contar a história das pessoas, locais e tempos presentes nos registros; e também para despertar lembranças dos momentos vividos. Com ele marcamos a memória das nossas aulas, contamos e registramos nossas histórias.
Antes de começar a construção do Diário de bordo foi preciso expor para a turma o que é um diário de bordo, utilizando, para isto, dois textos retirados da internet: um deles trazia o conceito de Diário de Bordo utilizado em navegações e outro relacionada a área da Educação e da pesquisa. Ambos abordando a importância do registro como meio de recordação, evocador de memória, considerando sua utilidade para a avaliação.
Ao começo da construção, cada aluno recebeu um caderno pequeno, sem espiral, o qual deveria personalizar, isto é, dar a sua cara a ele, utilizando papéis coloridos, recortes de revistas, tinta, canetinha, lápis de cor e outros materiais de recorte, colagem e pintura. Iniciamos esta personalização no dia 25 de agosto, mas nem todos conseguiram terminar nesta aula, por isto levaram para casa. Nesta etapa da atividade, cada aluno deveria apropriar-se do caderno que recebeu, criando uma capa exclusiva, buscando revelar um pouco de si através dela. Esta apropriação pode ser visualizada nas diferentes capas criadas:
André começou a personalização encapando seu caderno com uma folha branca onde pintou com tinta verde o símbolo de paz e amor. Como não gostou do resultado, colou recortes de revistas sobre a pintura. Na contracapa, colou figuras recortadas de revista: pomba da paz, vela, ramo de oliva, dois símbolos de paz e amor. Ao terminar a personalização disse que a contracapa estava mais bonita.
Elias e João Felipe optaram por utilizar histórias em quadrinhos sobre política retirados de revistas Isto é, nas capas de seus cadernos. Apesar de terem utilizado materiais parecidos cada caderno ficou diferente, pois diferentes significados foram atribuídos por cada um.
Adilson utilizou duas charges e a foto de uma mulher, mas não cobriu todo desenho da capa deixando aparecer o cão desenhado na capa.
Daniele não estava no dia da personalização dos diários, por isso fez todo o trabalho em casa. Na capa, colou um adesivo da Hello Kity e encapou com papel celofane cor de rosa.
Ana usou uma paisagem de outono com uma frase que fala de segurança e completou com uma camisinha com os dizeres ?Seja prudente?. No verso: sapatos de salto alto, coloridos, sobre um fundo preto e a frase ?Com palavras também se fere elas podem lesar a auto-estima?.
Jorge cobriu a capa do seu diário usando páginas inteiras de revistas: num lado o fundo em tonalidades de rosa e a imagem de uma mulher; no outro o desenho de um anjo sobre o fundo em tons azulados.
Através do Diário, eu buscava propiciar a auto-avaliação através das reflexões sobre a re-leitura dos registros individuais feitos ao longo das aulas. Desta forma, aprimoravam e apropriavam-se da escrita, enquanto forma de registro e expressão.
O primeiro registro do Diário foi a definição de si mesmo, feita através da escrita de um texto que falasse um pouco do dono do Diário: identificação, características, interesses, gostos,... Esta escrita foi feita numa atividade em sala de aula onde cada um recebeu o registro feito por mim, a partir das entrevistas que fiz com cada um, e um texto escrito por um colega.

Texto 1: Primeiro registro da Danielle em seu Diário.

Os demais registros seriam feitos no decorrer das aulas, considerando algumas regras que foram apresentadas para a turma:
· Haveriam registros propostos pela professora de caráter obrigatório para toda turma;
· Cada um pode fazer registros independentes sempre que achar conveniente;
· Cada um é responsável pela correção ortográfica de seus registros, entretanto os erros não devem ser apagados. Os erros devem ser sublinhados, numerados e sua correção será registrada nas últimas páginas do Diário, onde serão organizados de forma semelhante às notas de rodapé.
Juntamente com a construção dos Diários de Bordo individuais, iniciamos um Diário coletivo, onde eram narrados os acontecimentos de cada aula. Comecei escrevendo os primeiros relatos e posteriormente repassei esta tarefa para a turma. Cada dia um levava o Diário para casa e ficava responsável por escrever o que tinha acontecido naquele dia. Cada aula passou a ser iniciada pela leitura do relato da aula anterior e quem faltava numa aula ficava sabendo o que havia acontecido.
O Diário de Bordo busca ser um espaço para o exercício da escrita, nesta nossa sociedade da imagem e da oralidade. Desenvolver o hábito da escrita, derramar-se no papel, registrar sentimentos, pensamentos, opiniões; colocar tudo no papel para não deixar que se percam no ar, no esquecimento. Ao registrar ampliamos nossa memória, contamos nossa história, nos gravamos em cada palavra.

Texto 2: Registro da Ana no Diário de Bordo, em 22/09/05.

Contudo, escrever é um processo complexo e conflituoso. Implica romper com o medo e o silêncio, aos quais muitas vezes estamos submetidos, para construir nossas marcas de autoria.
Escrever não pode ser limitado a codificação de sons em sinais gráficos, assim como a cópia não pode ser o limite do aprender a escrever. Através do processo de escrita, nos tornamos autores de conhecimentos, na medida em que encontramos nossos tempos e espaços, nossos saberes e escolhas, e atribuímos-lhes outros sentidos, outros significados.
*********


(...)
Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
(...)


O Jornal-fanzine: construção dos dois jornais, sendo que o primeiro foi construído no inicio de outubro para a mostra literária na escola e o principal objetivo era divulgar para a escola a EJA e o segundo ainda em construção visa o registro escrito e a divulgação das descobertas das pesquisas realizadas pelos alunos ao longo dos meses de outubro e novembro.
# momento de expressar opiniões
# momento de revelar conhecimentos

Motivada pelo trabalho de monitoria que desenvolvo nas disciplinas obrigatórias do curso de Pedagogia ? Sociologia da Educação I e História da Educação no Brasil ? desejo uma sala de aula viva, um espaço onde os alunos devem tornar-se autores, criando e recriando os conhecimentos. Meu grande objetivo é superar a dicotomia ensinar-aprender, que pressupõe a existência de duas posições: o professor que sabe tudo, e por ser o detentor de todo o conhecimento cabe a ele a tarefa de ensinar; e, os alunos, inferiorizados, pois nada sabem e tudo precisam aprender.
O desejo de formar pessoas com autonomia para expressar suas idéias, capazes de refletir, criticar e criar conhecimentos motiva a possibilidade de propiciar espaços para o exercício da autoria.
Provocar mudanças na sala de aula, através do estímulo à autoria, à criação. Através da escrita, refletir sobre o papel da escola e da Educação de Jovens e Adultos, criando espaços de integração entre os alunos e alunas da 1ª e 4ª séries, motivando construções coletivas e solidárias. Estes são os principais objetivos que sulearam os processos de construção dos dois jornais-fanzine feitos pela turma, para divulgar as produções das turmas dando visibilidade à EJA na Escola.
O processo de construção da autoria é, muitas vezes, tenso e conflituoso. É um momento de enfrentamento consigo mesmo e com o mundo. Escrever é gravar no papel aquilo que pensamos, nossas idéias, saberes, sentimentos, opiniões e emoções. Derramar-se no papel para dizer exatamente aquilo que penso, não é tarefa fácil, é preciso romper com o medo. Este medo, que está entranhado em nós, que faz parte de nós. Superá-lo é parte do processo de criação.
Em setembro, enquanto a Escola preparava-se para a Primeira Mostra Literária da Escola, começamos a construção de um jornal, para distribuirmos no encerramento da Mostra. Optei por definir esta produção da turma como jornal-fanzine, por tratar-se de uma mistura dos dois.
Esta produção, montada em conjunto com a turma da primeira série, envolveu algumas etapas de construção. Inicialmente cada um realizou uma pesquisa de opinião com familiares e amigos.
A pesquisa intitulada: O que as pessoas pensam sobre a Educação de Jovens e Adultos, era composta por duas perguntas:
§ O que você acha da escola?
§ Para você o que é e para que serve a ? Educação de Jovens e Adultos?
Texto 3: Registro das entrevistas feitas pelo Elias.

As respostas das entrevistas foram o ponto de partida para a discussão em sala de aula, onde cada um colocou as suas visões sobre a escola, a educação e a EJA. O debate e a pesquisa constituíam-se como etapas fundamentais para a construção do primeiro jornal-fanzine. A partir da reflexão propiciada por estes dois momentos, cada um deveria criar um material para compor a produção.
Este momento não está restrito a escrita de um texto, sua criação envolvia a escrita e sua apresentação no jornal. Buscar em revistas materiais para ilustrar o texto, foi uma das sugestões, para fazer um material que chamasse a atenção dos leitores. Colocar a criatividade para trabalhar! Novamente o medo e o não saber acompanham o fazer. Não fomos educados para criar, nas escolas a aprendizagem baseia-se muito mais na cópia do que na criação, na autoria. A produção deste texto para o jornal-fanzine exigia superar o medo e colocar no papel suas opiniões, saberes, conhecimentos, desejos, sentimentos e pensamentos no papel.


Após a produção individual dos textos faltava organizar o mosaico que eles que eles iriam compor no jornal, colocá-los lado a lado numa composição harmoniosa. Este trabalho conjunto foi realizado na sala da primeira série. Além da organização dos textos precisava-se escolher o nome do jornal-fanzine, seu logotipo. Todavia, eles precisavam tomar estas decisões em conjunto, fazer escolhas. Era fundamental a constituição do grupo, a participação de cada um para a realização deste trabalho coletivo. Estavam todos receosos para começar a montagem, olhavam-se, mas ninguém tomava iniciativa, até que a Ana Paula passou a organizar a turma, chamando cada um a colaborar com a construção; propondo o nome, pedindo que um recortasse letras dos jornais e revistas, que outro colasse os materiais já organizados. Alguns se envolveram mais, outros um pouco menos, mas ao final todos haviam dado sua colaboração e o Jornal-fanzine: Chance para ler aprender, estava pronto.
No início da proposta de trabalho a turma estava receosa, não querendo expor-se, julgando-se incapaz de serem autores e divulgar suas produções. No decorrer da atividade, com incentivo e motivação, as turmas envolveram-se na criação de um trabalho conjunto, onde cada um contribuiu com seu texto e sugestões para montagem. Ao receber uma cópia do jornal-fanzine o clima de satisfação tomou conta de todos e surgiram as perspectivas de criação de outros números para divulgação na Escola.
Assim, a Escola e a comunidade conheceram o Jornal da primeira e quarta série da EJA da Escola Estadual de Ensino Médio Professor Oscar Pereira:

jornal


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(...)
Não te encontro, não te alcanço...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Cecília Meireles


Parafraseando Cecília Meireles, repito que - a vida só é possível reinventada - , por isso nos reinventamos a cada instante, recompondo nossos mosaicos interiores. Esta reinvenção mostra-se no segundo jornal-fanzine que compomos para divulgar as descobertas das pesquisas realizadas.
Ao longo dos meses de outubro e novembro, cada aluno escolheu um tema de seu interesse e montou seu projeto de pesquisa. O projeto de pesquisa foi composto a partir das respostas de cinco perguntas:
§ O que vou pesquisar?
§ Por que vou pesquisar sobre este assunto?
§ O que eu já sei sobre este assunto?
§ Quais minhas dúvidas?
§ Onde poderei pesquisar?
A partir dos projetos de pesquisa, escritos no dia 10 de outubro, iniciamos as pesquisas, realizadas na biblioteca da Escola, uma vez por semana. Lá, cada um foi atendido pela bibliotecária, que ajudou a encontrar livros e revistas que tratavam dos assuntos de cada pesquisa.
Elias, desde a primeira vez que falei das pesquisas que faríamos, manifestou seu interesse em pesquisar sobre a Revolução Farroupilha, naquela vez acreditava que esta escolha devia-se a passagem das comemorações do dia 20 de setembro, mas paulatinamente percebi que seu desejo era conhecer melhor a história do nosso Estado para compreender melhor os acontecimentos atuais.
O Adilson, que gosta muito de futebol, fez a sua escolha por este assunto. Nos momentos que passávamos na biblioteca leu diversos trechos de livros que falavam sobre diversos esportes.
João Felipe queria saber mais sobre vídeo-game, entender seu funcionamento. Sua dúvida, colocada no projeto de pesquisa que escreveu, era descobrir por quê o CD trava durante o jogo. Não encontramos, na biblioteca, nenhum material sobre vídeo-game, então leu diversos materiais sobre computadores,e seu funcionamento.
Já na entrevista que fiz no início do semestre o André revelou seu interesse por animais peçonhentos. Sua pesquisa foi descobrir como é feito o soro antiofídico, o que descobrir após ler diversos livros sobre cobras e animais venenosos.
A Ana Paula teve muita dúvida para definir seu tema para a pesquisa, mas acabou optando por pesquisar diferentes religiões. Ao longo das aulas na biblioteca, limitou sua pesquisa sobre a maçonaria e o budismo.
O Jorge pesquisou sobre cães, e as diferentes raças que existiam, mas a cada visita na biblioteca queria ler sobre assuntos diversos. Nos últimos dias de aula, começou a faltar e por isso não participou da construção do segundo jornal.
O Marcelo, não sabia sobre o que pesquisar. Havia faltado no dia da elaboração do projeto, por isto o fez posteriormente. Pesquisou sobre a formação das chuvas e o ciclo da água, mas não teve muito envolvimento na pesquisa, não encontrou nada diferente do que já sabia, por isto não manifestou grande interesse.
Danielle, faltou durante todo o mês de novembro, por isso não havia escrito seu projeto de pesquisa. Quando voltou, decidiu pesquisar sobre a Matemática, pois suas maiores dificuldades são nesta matéria.
Ao longo dos dias que realizamos as pesquisas na biblioteca, ficou estabelecido que não eram momentos de cópia de tudo o que estava nos livros, mas cada um poderia fazer os registros que julgasse necessário. Para encerrar as pesquisas fizemos uma mesa redonda onde cada um expôs para a turma sua pesquisa, ressaltando as descobertas que fez e contando como foi o desenvolvimento da mesma.

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O Vento na Ilha
O vento é um cavalo
Ouça como ele corre
Pelo mar, pelo céu.
Quer me levar: escuta
como recorre ao mundo
para me levar para longe.
Pablo Neruda


Escrever um texto... escolher palavras para revelar pensamentos.
Mas do que é que eles são feitos? Não sei! Até descobrir, vou tentando transformá-los em versos...
Imagens são traduzidas em palavras para contar o feito e refeito; o criado e o composto... vou assim escrevendo para alguém que não sei...
Alguém que preciso definir, antecipar suas ações, suas questões, suas interpretações, seus saberes e sentires...
O leitor é alguém que não conheço. Que convido a um encontro, a um reencontro. Marco um local, um lugar. Motivo a conversa, proponho um diálogo...
Quero levá-lo a lugares distantes, conhecidos e desconhecidos... lugares que nem eu mesmo sei que irás...
Meu texto interfere em sua vida, desperta novos pensares.

Cada texto se dá a mim, à medida que o leio, à medida que o escrevo.
Mas este dar-se nunca é dado por completo, sempre fica um pouco ali...
Um pouco calado, ou quem sabe silenciado,
Um pouco faltando que completa este incompleto
Um pouco questionado, argumentado, negado
Um pouco desconhecido, obscuro, que não quer se descobrir
Um pouco que abre espaços para a imaginação....
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Ausência
Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.
Carlos Drummond de Andrade



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DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mario Quintana


Inspirações:

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 165p.
KLEIMAN, Angela Bustos. Interação na leitura de textos. In: _____. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas: Pontes, 1989. p. 65-80.
SANTOS, Simone Valdete dos. Educação Profissional e Desemprego em Pelotas: da Construção do Mosaico. In:____. O ser e o estar de luto na luta: Educação profissional em tempos de desordem: ações e resultados das políticas públicas do PLANFOR / Qualificar na cidade de Pelotas/RS: 2000-2002. Porto Alegre, RS. Tese de Doutorado ? Programa de Pós-Graduação em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Sul ? UFRGS, p. 22-54.
SHOR, Ira. FREIRE, Paulo. Medo e ousadia : o cotidiano do professor. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1986.
As diversas poesias, utilizadas ao longo dos textos, foram retiradas do site: http://www.fabiorocha.com.br/

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